segunda-feira, 3 de fevereiro de 2014

Zé Nando encontra-se em frente ao espelho partido do seu WC. Ajeita a gravata cor-de-rosa, o casaco roto nos cotovelos, lava os dentes com o dedo indicador, porque a escova há muito caiu na sanita e ali permanece. A brilhantina acabou e, nervoso, cospe nos dedos mexendo no cabelo pela milésima vez. Hoje, espera que seja o capítulo inicial do seu amor pela Débora. Quer tê-la para sempre ao seu lado. Decidido está, vai pedi-la em casamento, contra ventos e marés, ou melhor, contra facadas no abdómen e ameaças de olhos varados por parte da sua amada. Encaminha-se para a porta não sem que antes pise violentamente mais duas baratas que vagueiam pelo seu quarto em busca de um lugar quente e gorduroso. São 21 horas e 49 minutos. Caminha apressadamente pelas ruas quase desertas do bairro onde viu, pela primeira vez, o amor da sua vida. Com quatro rosas na mão roubadas de manhã no mercado da zona, reza a São Raimundo, padroeiro dos homens baixos e com azar na vida, para que o seu amor seja correspondido, que a sua boca seja beijada como um fogo que arde e bem se vê, mas é rapidamente abordado por dois sujeitos.

As suas preces, ainda a caminho do céu, e a sua incapacidade muscular impossibilitam qualquer tipo de defesa e, numa fracção de segundo, roubam-lhe a carteira onde religiosamente guardava a nota de cinco euros dada pela sua tia quando saiu da prisão. Pretendia levar a Débora a comer um hambúrguer ao MC Donalds, mas acabou com o lábio aberto e o nariz a sangrar. Sentado no chão pensa em desistir, pensa que nunca terá sorte na vida, mas o amor pela sua gordinha de carnes flácidas está impregnado no seu corpo, como uma droga dura que o faz recuperar rapidamente. 

Decidido, tira a gravata rasgada, limpa o sangue que escorre da sua boca, cospe para as mãos e arranja mais uma vez o cabelo. 
- Débora sou eu, o teu Zé Nando, abre a porta. 
- Porra, já começas, pára com isso, ainda me cortas todo com esses pratos. Não sabes que podes furar-me a cabeça se isso me acerta?! 
- Desce, tenho um presente para ti que vais adorar e um pedido para te fazer. Débora, o saco do lixo, achas bem?!! 

Abruptamente a porta abre-se. Débora Paulo surge de meias de liga encarnadas, fio dental sem que se perceba onde está o fio, e uma camisa de noite roxa. 
Zé Nando quase desmaia. 
- Meu amor, que saudades, estás linda, que combinação maravilhosa, encarnado com roxo. Andas a ler revistas de moda não é meu leitãozinho? 
- Bolas, amor, porque me deste um estalo? Elogiei-te! Já vou ficar com outro olho negro... Estás forte leitãozinho, adoro essa gordura acumulado nos teus bíceps. 
- Toma, estas lindas flores são para ti. Eu sei que não estão frondosas, mas foi o que consegui salvar. Antes de chegar fui assaltado por dois gajos do bando do Navalhas, mas, mesmo assim, consegui recuperar estas duas rosas vermelhas, estão intactas. Gostas? Não as pises meu leitãozinho, não, frondosas não é insulto ao teu buço farfalhudo, é apenas uma palavra que ouvi uma vez da boca de uma senhora ali para os lados de Telheiras. 
- Mais calma? 
- Tenho outro presente para te dar. Lembras-te no dia em que foste à festa em casa da Micaela Andreia e dançaste a noite toda ao som da Rosinha? Sim aquela que canta “Com a boca no Pipo”? Aqui tens o álbum, o Valdinei tinha-o lá na prisa e orientou-me para te dar presente. Ele quer muito conhecer-te, precisa de umas dicas sobre depilação, coitado, tem imensos pelos no fundo das costas e nas virilhas e como tu dizes que usas bem a gilete, ele quer saber como fazes. - Gostaste? Mas conta-me tudo, como estás meu amor? Ocupada com o quê?!!!! 
- Não Debinha, por favor, não vás, fica aqui comigo porque tenho mais uma coisa para te dizer. Esquece que o Zé Prego está na tua cama, ele é careca e cheira sempre a óleo de motor, senta-te aqui ao meu lado, por favor. 

Aquele homem apaixonado ajoelha-se. Coloca a mão no bolso, olha para a sua amada e declara-se: - meu leitão mais saboroso, aceita esta aliança, queres casar comigo? Tens todo o tempo do mundo para pensar, mas por favor não me batas, já estou todo dorido. 

Débora pega na aliança, olha para Zé Nando, de novo para a aliança e, qual milagre, revela-se: 
- Meu grande estúpido magricela, porque demoraste tanto tempo a pedir-me em casamento? És muito burro. Não percebes quando uma mulher está apaixonada por ti? Era preciso dar-te mais sinais? Chamei-te todos os nomes que fui aprendendo com a minha avó sempre que ela insultava o meu pai, ameacei-te, recusei-me a dar-te beijos, nunca me tocaste porque sempre que o querias fazer levavas na tromba, que mais precisavas para perceber que te queria? Não vês os filmes amaricanos na TVI? 
- Fónix Zé, estava à espera deste momento há muitos meses. Agora, bem, agora não posso aceitar o teu pedido. Nunca mais te decidias e eu pensei que acabarias por morrer na prisa ou virar panilas por causa do Valdinei. Vou casar-me com o Zé Prego, comprámos uma casa ali na Zona P e vamos ser muito felizes para sempre. Ele não é tão sensível como tu, aliás dá-me grandes palmadas na peida, mas tem dinheiro do negócio de peças de automóvel que rouba ali para ao lados de Belém. Chegaste tarde meu escanzelado, mas quero que saibas que todos os murros que te dei foram com muito amor. Agora desaparece, estou com fome e vou subir. Leva este anel fininho em latão, não te quero ver mais, nunca mais - diz Débora fechando a porta com estrondo. 

(continua)

TG

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